27 de maio de 2010

é cá nesta vida que se paga

Numa conversa, que inicialmente seria sobre saúde, um indivíduo contou-me que iria ser operado a uma hérnia discal. Quando demonstrei a minha solidariedade para com o problema de saúde, ele disse-me que a sua única preocupação seria saber se poderia voltar a saltar de pára-quedas. E, segundo o médico, sim, poderia voltar a saltar de pára-quedas após a operação. Pára-quedistas à parte e porque não gosto de conversar sobre problemas de saúde, é claro que tinha que introduzir uma versão mais existencial para a hérnia discal. Disse-lhe que segundo a minha perspectiva a hérnia discal seria uma consequência de um esforço físico, provavelmente um salto de pára-quedas. É cá nesta vida que se paga os males que fazemos ao corpo, disse eu ao estilo de António Variações. Tenho a sorte de me pagarem também para conversar. Ao que ele me respondeu que sabia precisamente o dia responsável por aquela hérnia. Foi há 22 anos atrás, num salto, não de pára-quedas mas sim um outro que não me lembro o nome e que metia um arnês muito difícil de explicar aqui. Eu já fiz saltos radicais, antes de ter medo. Agora, os saltos são cada vez mais baixinhos, com um arnês daqueles que seguram o corpo todo e de preferência com rede. E também sei a hora, o dia, as semanas, os meses, os anos, todos os momentos que me farão pagar, cá nesta vida. Também não sou crente que exista outra. Voltando à hérnia, não sei se foi aquele salto o responsável pelo aparecimento mas a verdade é que gostamos de marcar momentos, e eu agora tenho a certeza que aquele momento foi especial para ele. E voltaria a saltar? Perguntei eu, meio em jeito de provocação. Sim, faria esse e muitos mais se pudesse voltar o tempo atrás, respondeu ele. É desses momentos especiais que vivemos, aos 20, 30, 40, 50, 60, 70 anos de idade. Cada um com a sua maneira especial, que em geral reflecte a idade que se tem. O meu irmão mais novo, da última vez que me viu triste, disse-me com bastante convicção e satisfação "se a vida te dá limões, junta-lhe a tequilla e o sal". Ele só tem 24 anos mas é um sábio. E naquele dia, que hei-de pagar mais tarde, serviu bem o propósito. Mas, mais difícil do que curar uma hérnia discal, mais difícil do que esquecer um momento mau, mais difícil do que voltar atrás no tempo, mais difícil é perder o medo de viver com medo das consequências. As consequências, aquelas que se vão pagar nesta vida.

10 comentários:

Catarina Reis disse...

O melhor Tulipa, é viver a vida que se tem, da maneira que se sabe e se gosta, e por vezes também é bom viver alguns momentos sem se estar sempre a pensar nas consequências. O teu irmão é um sábio, deve ter aprendido algo com a irmã.
Bjs Catarina

Tulipa disse...

É fazer o melhor que se sabe. O meu irmão só tem boas influências :) kiss

Manuela Coelho disse...

Subscrevo o que disse a Catarina.Como é natural,a tendência com o tempo é medir cada vez mais as consequências dos nossos actos. Mas julgo que a questão está em saber dosear.

Beijinho

Tulipa disse...

É verdade Manuela...saber dosear e conseguir olhar e ver sempre meio cheio. kiss

Helga disse...

Tulipa, poderemos não ter tempo de pagar as consequências, por isso há que arriscar e viver enquanto ainda respiramos...

Kisses

El Matador disse...

É fazer o que nos apetecer; às vezes nem temos tempo suficiente de nos arrepender.

Tulipa disse...

helga e matador estão no mesmo sentido, no sentido certo ;)

Manuela Santos disse...

Tulipa,
Os desafios na vida são necessários, mesmo que tenham um preço! Não sou nada, de estar a fugir disto ou daquilo, porque pode acontecer X ou Y, sou daquelas pessoas que vive com a certeza que um dia qualquer vai acontecer!...
Beijinhos,
Manuela

Rafeiro Perfumado disse...

Tenho um joelho lixado à conta de escalar uma montanha. Achas que vou deixar de o fazer? Não, porque é a fazer isso que me sinto vivo.

Tulipa disse...

Manuela, cada vez concordo mais contigo, mais vale pagar o preço do que não encarar o desafio. Até porque, não correr riscos também tem um preço a pagar.

Rafeiro, é importante sentir que estamos vivos sempre. E estamos cá para tratar do depois.