22 de julho de 2008

" Quando eu era pequeno, adorava o circo e aquilo de que mais gostava eram os animais. Cativava-me especialmente o elefante que, como vim a saber mais tarde, era também o animal preferido dos outros miúdos. Durante o espectáculo, a enorme criatura dava mostras de ter um peso, tamanho e força descomunais...Mas depois da sua actuação e depois de voltar para os bastidores, o elefante ficava sempre atado a uma pequena estaca cravada no solo, com uma corrente a agrilhoar-lhe uma das suas patas." " No entanto, a estaca não passava de um minúsculo pedaço de madeira enterrado uns centímetros no solo. E embora a corrente fosse grossa e pesada, parecia-me óbvio que um animal capaz de arrancar uma árvore pela raiz, com toda a sua força, facilmente se conseguiria libertar da estaca e fugir." " O mistério continua a parecer-me evidente." " O que é que o prende então?" " Porque é que não foge?" " Quando eu tinha cinco ou seis anos ainda acreditava na sabedoria dos mais velhos. Um dia decidi questionar um professor, um padre um tio sobre o mistério do elefante. Um deles explicou-me que o elefante não fugia porque era amestrado." " Fiz então a pergunta óbvia: - Se é amestrado porque é que o acorrentam?" " Não me lembro de ter recebido uma resposta coerente. Com o passar do tempo esqueci o mistério do elefante e da estaca e só o recordava quando me cruzava com outras pessoas que também já tinham feito essa pergunta." " Há uns anos descobri que, felizmente para mim, alguém fora tão inteligente e sábio, que encontrara a resposta:" " O ELEFANTE DO CIRCO NÃO FOGE PORQUE ESTEVE ATADO A UMA ESTACA DESDE QUE ERA MUITO, MUITO PEQUENO." " Fechei os olhos e imaginei o indefeso elefante recém-nascido, preso à estaca. Tenho a certeza de que naquela altura o elefante puxou, esperneou e suou para se tentar libertar. E apesar dos seus esforços não conseguiu, porque aquela estaca era demasiado forte para ele." " Imaginei-o a adormecer, cansado, e a tentar novamente no dia seguinte e no outro e no outro...Até que um dia, um dia terrível para a sua história, o animal aceitou a sua impotência e resignou-se com o seu destino." " Esse elefante enorme e poderoso, que vemos no circo, não foge, porque coitado, pensa que não é capaz de o fazer." " Tem gravada na memória a impotência que sentiu pouco depois de nascer." " E o pior é que nunca mais tornou a questionar seriamente essa recordação." " Jamais, jamais tentou pôr novamente à prova a sua força..." " - E é assim a vida, Damião. Todos somos um pouco como o elefante do circo: seguimos pela vida fora atados a centenas de estacas que nos coarctam a liberdade." " Vivemos a pensar que não somos capazes de fazer montes de coisas, simplesmente porque uma vez, há muito tempo, quando éramos pequenos, tentámos e não conseguimos." " Fizemos então o mesmo que o elefante e gravámos na nossa memória esta mensagem: " não consigo, não consigo e nunca hei-de conseguir..."" " Crescemos com esta mensagem que impusemos a nós mesmos e por isso nunca mais tentámos libertar-nos da estaca." " Quando por vezes sentimos as grilhetas e as abanamos, olhamos de relance para a estaca e pensamos: NÃO CONSIGO E NUNCA HEI-DE CONSEGUIR. "O Jorge fez uma longa pausa. Depois, aproximou-se, sentou-se no chão à minha frente e prosseguiu:" " - É isto que se passa contigo, Damião. Vives condicionado pela lembrança de um Damião que já não existe, que não foi capaz." " A única maneira de saberes se és capaz é tentando novamente, de corpo e alma...e com toda a força do teu coração." Jorge Bucay ( Deixa-me que te conte)

1 comentário:

A.Gaspar disse...

Eu decidi evitar o "buraco" da mesma rua...e daí caminho por outra...
Meu espanto foi...começar este novo capítulo com este mesmo conto...
Ele é uma maravilha de libertação...mas inevitavelmente trabalhoso...