- Eu tenho um gosto especial pelo lado negro da condição humana.
- desculpa, mas não te vou acompanhar nisso.
- o que eu queria dizer é que gosto de pessoas diferentes.
- não te quero abandonar, mas não vou compactuar com isso.
- vou explicar: quando conheço uma pessoa foco-me nas coisas menos boas da personalidade.
- achas que podias gostar de um criminoso?
- provavelmente não. Mas não é mesma coisa.
- é exactamente a mesma coisa. Não irias gostar de alguém que cometesse um crime porque está fora dos padrões que tu estabeleceste como os teus.
- mas o que eu queria dizer é que se conheço uma pessoa, o que me cativa é o que ela tem de diferente.
- nós gostamos daquilo que construímos como o nosso referencial de interesses e de valores. Não ias gostar de alguém que fizesse mal a ti ou aos outros?
- não estás a perceber. Por exemplo, conheci o que se pode chamar de uma “regular person” que a única coisa que tinha de diferente era gostar de pescar à beira-mar sozinha. Eu fixei-me na ideia “o que leva uma pessoa a ir pescar sozinha? O que será que pensa quando está a pescar?” e ignorei qualquer outra qualidade que pudesse ter. O meu interesse passou a ser o descobrir o que leva uma pessoa a ir pescar sozinha.
- já alguma vez foste pescar à beira-mar sozinha?
- não, nunca.
- Já experimentaste perguntar porque é que essa “regular person” vai pescar à beira-mar?
- não.
- mas sabias que existem muitas pessoas que pescam sozinhas? E também há quem jogue golfe, corra, pratique surf, btt, etc., e não revele dessa forma o lado negro da personalidade. Acho que precisas de rever uns conceitos.
- sim, era só um exemplo, mas o que eu queria dizer era…
- que não gostas de “regular persons”?
- isso mesmo.
- mas devias, assim elas iam gostar de ti também.