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3 de janeiro de 2012

Desejo-vos um feliz 2012

E que o ano novo seja, no mínimo, um processo de (re)atribuição de sentido à experiência e ao conhecimento adquirido ao longo dos vossos, meus, anos de vida. E não, não sou pobre a pedir. Às vezes tenho é dificuldade em tirar o trabalho da cabeça.

22 de agosto de 2011

Culpa

- Preciso muito de falar contigo. Porque não apareces no skype?
- Chego cansada e não me apetece ligar o computador.
- Mas precisava de falar contigo. Preciso de uma opinião.
- Liga-me.
- Assim não gastamos dinheiro.
- No telemóvel também não.
- Mas não dá para transpor emoções por telemóvel.
- Nem por skype. Diz lá, o que se passa?
- Mas ao ver a tua cara dá para perceber melhor...
- Dá para perceber melhor o quê?
- O teu ar de reprovação.
- Ah? Mas se já sabes que vou reprovar porque queres falar comigo?
- Para dividir a culpa. Tu sabias e não me impediste…

3 de janeiro de 2011

No consultório

Ele- bons olhos a vejam!
Eu- espero bem que sim!
Ele- o que te traz por cá?
Eu- apareceram-me umas manchas no corpo.
Ele- despe-te.
Eu- toda?
Ele- comeste alguma coisa estragada?
Eu- que eu saiba, não.
Ele- foste comida por alguma coisa estragada?
Eu- hã!?
Ele- podes vestir.

17 de novembro de 2010

Entre um beijo e outro beijo

- Eu tenho um gosto especial pelo lado negro da condição humana.
- desculpa, mas não te vou acompanhar nisso.
- o que eu queria dizer é que gosto de pessoas diferentes.
- não te quero abandonar, mas não vou compactuar com isso.
- vou explicar: quando conheço uma pessoa foco-me nas coisas menos boas da personalidade.
- achas que podias gostar de um criminoso?
- provavelmente não. Mas não é mesma coisa.
- é exactamente a mesma coisa. Não irias gostar de alguém que cometesse um crime porque está fora dos padrões que tu estabeleceste como os teus.
- mas o que eu queria dizer é que se conheço uma pessoa, o que me cativa é o que ela tem de diferente.
- nós gostamos daquilo que construímos como o nosso referencial de interesses e de valores. Não ias gostar de alguém que fizesse mal a ti ou aos outros?
- não estás a perceber. Por exemplo, conheci o que se pode chamar de uma “regular person” que a única coisa que tinha de diferente era gostar de pescar à beira-mar sozinha. Eu fixei-me na ideia “o que leva uma pessoa a ir pescar sozinha? O que será que pensa quando está a pescar?” e ignorei qualquer outra qualidade que pudesse ter. O meu interesse passou a ser o descobrir o que leva uma pessoa a ir pescar sozinha.
- já alguma vez foste pescar à beira-mar sozinha?
- não, nunca.
- Já experimentaste perguntar porque é que essa “regular person” vai pescar à beira-mar?
- não.
- mas sabias que existem muitas pessoas que pescam sozinhas? E também há quem jogue golfe, corra, pratique surf, btt, etc., e não revele dessa forma o lado negro da personalidade. Acho que precisas de rever uns conceitos.
- sim, era só um exemplo, mas o que eu queria dizer era…
- que não gostas de “regular persons”?
- isso mesmo.
- mas devias, assim elas iam gostar de ti também.

11 de novembro de 2010

Medo

Acabaram de me dizer que a pior guerra é a que se trava sem medo. Sim, faz sentido. O medo faz-nos parar, pensar, delinear estratégias, e pensar em nós e nos outros. Só que às vezes é tarde demais, por medo não se ganha nem se perde, simplesmente não se participa. E isso não é bom, é aborrecido.

13 de setembro de 2010

No carrossel

Pai: por amor de deus, acelera!
Eu: ah?
Mãe: não estejas a incentivar a miúda a andar com velocidade!
Pai: o carro está todo atrofiado, tens que esticar as mudanças.
Eu: esticar como? Até fazer barulho?
Pai: por amor de deus, que totó, até às 4000 rotações…
Eu: estás a brincar? Enches tu o depósito?
Pai: Assim, atrofiadíssimo, o carro gasta o dobro. Se fosse eu a conduzir já íamos a 180 km/hora.
Mãe: tu és muito bom! Não estejas a incentivar a miúda a andar depressa.
Pai: antigamente eras uma acelera, deste-me cabo dos carros todos. Lembraste de partir a embraiagem? E quando te despistaste e partiste o cárter e quase fiquei sem carro? Agora coitadinha estás assim. Parece que vais ter é que substituir os travões…
Eu: coitadinha? Ah? Queres levar tu o carro?
Mãe: acelera! Ainda estava amarelo!
Eu: mãe! Estás a incentivar-me a passar sinais vermelhos?
Mãe: estava amarelo, quer dizer passar depressa…
Eu: espero que estejam a brincar comigo…

9 de junho de 2010

Entre um beijo e outro beijo

- Não consegues ver que ela não tem o mínimo interesse em ti!?
- Estás a ser má. As coisas não são assim tão lineares.
- Não são? Se de um momento para o outro, ela diz que vai embora e nem pergunta o que tu achas…
- Mas a vida é dela.
- Por isso mesmo. Ela escolheu vivê-la sem ti.
- Como é que podes ser assim tão directa? Há pouco tempo atrás disse-te uma coisa parecida, de uma forma um pouco mais carinhosa, e tu disseste que estava errado e ficaste zangada.
- É que nós conseguimos ver melhor e avaliar melhor as situações relativas aos outros.
- Mas podias ser mais meiguinha.
- Para quê? Tu não vais aceitar de forma nenhuma. Só te quero chamar à realidade, embora saiba que neste momento é impossível.
- Ele tem-te procurado?
- Não.
- Estava a ser mau.
- Não consegues. É uma arte feminina.

30 de maio de 2010

Os mal-entendidos são como as bruxas, parece que são impossíveis, mas que os há, há. E depois não se pode fazer nada, já foi. São como as paixões, quanto mais nos envolvemos mais crescem. E começo a acreditar que são como a morte, não têm remédio. Ah! E são como as cerejas, começamos a comer uma e não conseguimos parar, e como  as conversas.